
Caminhamos curvados, carregando nos ombros o peso de uma vida de dissabores, de escolhas trémulas, de rotinas esmagadoras, de sentimentos fechados a cadeado, de vontades reprimidas, de identidades escondidas. Caminhamos com o sentimento de contentamento, de resignação, numa apatia ridícula, numa omissão de auxílio ao nosso próprio ser. Deixamo-lo enterrar-se em areias movediças, esquecemo-nos de o cuidar, sobrevivemos. Só que, acontece sempre sem darmos conta, um dia, nas escadas da vida, provamos um beijo com sabor a chuva e o peso avassalador transforma-se de imediato numa leveza arrebatadora. Caminhamos nas nuvens, de sorriso estampado no rosto, sonhamos acordados, desejamos com todos os poros da nossa pele. Entregamos a chave de um coração que até ali cumpria apenas as suas obrigações e passamos a depositar nele a esperança de palpitar até à exaustão, de um tudo ou nada. Soltamos os sentimentos enclausurados, perdemo-nos num corpo que contém a alma mais bonita, a alma que nos completa, que nos faz sentir únicos, que se encaixa em nós como duas mãos entrelaçadas a passear na rua. Construímos um mundo privado, um mundo que mais ninguém conhece, somos felizes lá. Viciamo-nos nas sensações que aquela voz nos provoca, das palavras ora intensas, ora doces. Viciamo-nos no rosto distraído que pensa em voz alta e nos sorri quando nos surpreende a observá-lo. Viciamo-nos no aroma característico, ímpar, que emana da pele que nos abraça, que nos envolve e nos cuida. Viciamo-nos no toque de umas mãos irrequietas que tanto nos serenam como nos incendeiam. Viciamo-nos no olhar cansado e dormente, terno e doce, enfurecido e fogoso. Viciamo-nos no sexo que nos enlouquece, na língua que nos devora, nas investidas audazes e certeiras, nos orgasmos partilhados, no abafar dos gemidos, no degustar do corpo que amamos sentir colado ao nosso, na partilha, na cumplicidade. Entramos num caminho sem retorno. Apaixonamo-nos.
[ um texto roubado ]