há sempre alguém….




Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...
[trovante]
Tinha os cabelos desalinhados como as roupas espalhadas pelo chão.
O olhar meio macilento, eram o reflexo da alma que lhe animava o corpo…
Sentou-se defronte ao toucador e deixou-se afundar naquela cadeira de mil histórias feita, a única que a afagava, naquela vida de quase demência.
Semi-cerrou os olhos inclinou a cabeça para trás, enquanto pensava que; se o milagre existe ele poderia acontecer ali, quando abrisse os olhos a sua vida seria outra, bem melhor. Abri-os com a triste certeza que nada tinha mudado. Tomou postura, desafiou o olhar do toucador, e entrou em estado hipnótico, visitando todos os seus personagens. Entre loiras ruivas e morenas, elegantes ou anafadas, determinadas ou coitadinhas, lembrava as calças com vinco, e a barba bem aparada, personagem importante que deixava outras desgraças de joelhos. Seria só escolher.
Forçou a amplitude do olhar para descer a si, esboçou um sorriso que importou das memórias, ajustou-se á cadeira de mil histórias, encarou de novo o toucador digitou a palavra pass, deu enter, e fez-se á vida trocando-lhe as voltas. O único milagre em que acreditava.

sugestões…



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silenciosas…

inestimável




Não me vejas, não me repares, não me fales como se me visses visível.
Não me vejas, estou de folga a ti, não me repares, estou sem reparação, não te oiço, porque me falas?
Sou transparente, índole a esses olhos desaluminados.
Tantos me vêm sem sequer me olhar, tantos quantos eu sou.
Não me vejas, não me regales esses olhos deslavados de ser, não me fales esse falar de silêncio opaco.
Tantos milhões me vislumbram e tantos mais me deslumbraram... e tu não me olhes, não me fales, não percebo essa voz escura, que diz tudo do nada.
E nada é o que julgas que vês, não me vejas então, carregada de porquês, não fales achando-te que prevês, mas não, não vês, nunca me viste admite! Então mais uma vez.
Não me vejas, não me repares, não me fales como se me visses!
Invisível, inestimável a ti.

rascunho/a posteriori



Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.
[Clarice Lispector]
A rua é estreita e a calçada, ainda transpira,
suores dos primórdios do século passado…
o eco dos passos seguia-o, com a mesma cadência com que caminhava…
Inclinou a cabeça e disse bom dia, a dois olhos verdes que conhecia, sustendo a respiração nuns castanhos, que olhava pela primeira vez…e seguiu
Uma voz misturou-se com o eco dos passos….
meio sumida perguntou, quem é?
- É o homem vestido de negro, mas de alma branca, sonhador nas horas vagas, com quem costumo tomar café.
Disse sorrindo e continuou:
̶ Um dia disse-me!... Quando os anos me comerem a juventude, iria fazer parte do mesmo clube. Que por essa altura era muito bem provável que ele já não estivesse por cá, estaria no mundo dos sonhos, a ver passar os meus. Se assim acontecesse: iria pedir a quem os concede, a concretização de todos aqueles que jamais, me possam vir a magoar no futuro.
Voltou a sorrir e terminou dizendo: fiquei com a sensação que os anjos protetores nos aparecem assim.

um abraço fraterno, a uns olhos verdes que por aqui passam de tempos a tempos

[ in ] certeza




gosto
do teu laço que me enlaça
quando me sonhas ou visitas
naquelas horas descritas
como o desfolhar de um malmequer.
fico vestido de nim, 
na incerteza se és um não, ou um sim

ecos…




molda-me o eco, das palavras que grito
ao desfiladeiro da vida,
quando a mudez dos meus gritos
te sabem distante, num lugar inserto.
molda-te ao eco das palavras que grito
para que elas me invadam 
se façam sentir prenhes de ti enquanto te espero, nesta agonia
de tempo que tarda em te fazer carne viva em mim

miragem….




plena solidão
esta, que me veste a pele
quando te ausentas de mim
nem um sopro de esperança se faz sentir
no suspenso olhar abstracto, que imagina o teu regresso.
voltas!
voltas, sempre…
pintas telas do futuro, que cabem no meu sorriso
mas que se diluem na sudorese deste corpo em desalinho
quando o tão perto, fica tão longe  no esfumar do teu olhar.
depois voltas…
voltas sempre…
e eu renasço e morro todos os dias
entregue ás delicias de um sonho
que não volta,  ver-te partir…

socorro!!...




...estou a apaixonar-me
é impossível resistir a tanto charme.
[pedro abrunhosa]
gosto do pormenor.
do percurso.
do dedo mindinho…
uma boa semana para quem aqui passa

porque nem só hoje, é dia….




  “O homem sonha. Do fundo de uma perspectiva rasgada numa matéria opalescente uma mulher caminha para ele. É  a sua alma. Psique! A mulher traz um espelho na mão. O homem vê-se no espelho. O seu rosto está banhado de uma luz semeada de pequenas asas vibráteis de platina. É a revelação inaudita do anjo que ele era e não sabia. O homem vê-se no espelho. O seu rosto está coberto de minúsculos animais viscosos que incessantemente saem do antro tenebroso do seu coração. É a revelação monstruosa do demónio que ele era e não sabia.

Éis a glória e a ignominia da mulher… Glória, porque é da sua natureza anímica, apaixonante, pôr o homem em tensão para o sublime ou para o ignóbil que nele se libertam pela via da paixão. Ignomínia, porque esta propriedade entusiasmante de mulher implica ser ela indispensavelmente objecto da subjetividade do homem.”
[natalia correia in mulher - antologia poética]

guarda freios….




puxava as rédeas ao torpor do corpo
sempre que o peito flamejava
puxava as rédeas á vida
que corria desenfreada
sem que a pele provasse o sabor dos cheiros
tinha o destino traçado…
mas era urgente levar em registo
o que os seus olhos viam entre cada estação e apeadeiros da vida
vestia roupas velhas, cheias de sonhos novos, e ria…
enquanto o flamejar do peito ia acalmando
ao som do apito, de um qualquer guarda freios da vida.

sussurros….




vento não é certamente e a chuva não bate assim*
são sussurros de almas nobres,
que me falam ao encanto.
são momentos…
fragmentos de Luz que se dão a quem se quer…
E os meus olhos molhados em plena sintonia, riem….
riem de amor fraterno,
nesta cumplicidade de quem se dá, sem nada querer de volta.
vento não é certamente e a chuva não bate assim*
ano 2009

foi [as]sim…




Foi sem chão, sem tecto, sem amarras, sem lugar ou espaço que do desconhecido surgiste, quase um meio segredo, quase uma meia verdade. E foi aos poucos nascendo a vontade de te destapar a alma, pura, escondida bem lá no fundo, onde se guardam tesouros, que se oferecem a poucos. As noites perambulam nuas de si e cheias de armadilhas, e tu vagueias no meio da imensidão do negro manto estrelado, como um vulto esguio nas sombras da lua. Soberana, rainha da noite, que ilumina a solidão que circula entre o frio de inverno e as árvores despidas. Foi assim... no meio do nada que se cristalizou o sentimento profundo que me acalenta a alma só. Trazes nas mãos o cheiro do sexo satisfeito, o apelo ao renascer de novo de cada vez que o mundo se apaga entre as tuas mãos, de cada vez que o mundo sente o fervor de energia libertada em segundos perfeitos de pura magia. Caminho e sinto... os arrepios na pele da brisa gélida que me rodeia, misturados com o calor do fogo que me incendeia o olhar, me queima as entranhas numa descoberta lenta de te ser. Foi liberdade renascida! E de cada vez se solta mais um grilhão do passado embrulhado em pó, amarrotado pelo tempo, e arrumado nas prateleiras cimeiras, onde não se chega todos as dias, nem deseja chegar, onde se faz silêncio e jazem os fantasmas empoeirados. Reza a história, era mais um capítulo acabado, concluído, e virado de página, onde as letras ganharam vida ao sabor das emoções que governaram e comandaram o destino daqueles dias. Foi assim! Onde do sangue quente se extraiu mais um veneno tragado em goladas gulosas de quem deseja engolir a vida de uma só vez. Caminhas novamente... em busca de mais uma paragem, no tempo, no espaço, sem chão e sem amarras, num abandono total à profundidade de te amar sempre mais...

elas…




andem ai!…andem, andem…

assim…




até poderias pisar-me a alma…que eu não resistia…

quem sabe!?...




Quem sabe!?... o medianeiro me ajude…
com um credo nas costas,
me liberte desta mortalha, que se lê na talha,
das sete gotas de oliva, deitadas ao acaso na incolor pureza da vida…
Que me reze a sorte; que antes da morte,
viverei inundado
do teu corpo escondido
que, se sente omisso
da elegância que articulas nas palavras…
que as penitencias me rasguem
o véu da aparência, e a fragilidade se exponha.
que te possa dizer, quantas vezes os meus olhos humedecem  de esperança
na felicidade de um sorriso anónimo, e outras tantas o coração, mingua na ausência de ti…

pois é….





[...Deixa-me rir
Tu nunca lambeste uma lágrima
Desconheces os cambiantes do seu sabor
Nunca seguiste a sua pista
Do regaço à nascente
Não me venhas falar de amor

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda feira

Deixa-me rir
Tu nunca auscultaste esse engenho
De que falas com tanto apreço
Esse curioso alambique
Onde são destilados
Noite e dia o choro e o riso
Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Iluminar o teu refúgio
Aquecer-te essas mãos
Rasgar-te a mascara sufocante

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda feira
[jorge palma]

fica-me um foda-se, de tanto me/te querer escrever, e o agigantar
do branco no papel, que teima em triturar-me a alma,
sufocando-me os sentidos…

depois…




…fez-se silêncio
os olhares, intensos e flamejantes de tesão, traçaram a rota para o leito.
somente a avidez daqueles  dois corpos se fazia ouvir, em gestos ainda desalinhados,  pelo nervosismo do seu primeiro encontro…

…nos braços da madrugada




morria nos braços da madrugada.
O tacticismo místico, roubara-lhe a alma,
Fechava os punhos, esmagando os panos que a cobriam, em angústias desmedidas.
Afinal o iluminado; sempre foi a treva, na indumentária de um arguto pseudo-sábio, que lhe cerceava os sentidos…
O ar que respirava, entre aquelas quatro paredes, engolira-lhe, a perfumada essência, que seu corpo sempre emanou. Num arquejar de corpo, impulsionava a mente, para sair daquela teia, que em tempos sonhou bela, na subtileza de uma sedosa textura; hoje tecida, por galhos e espinhos secos, como a do crucificado, a dor dilacera-lhe a alma, num sentimento mordaz, como se aquele vazio, fosse o ultimo suspiro da sua existência…
Mal sabia, que estava a dar o primeiro passo para ser livre, qual Fénix

inquietude





lá fora chove, e o vento trás a maresia
desse teu mar de amar, em voluptuosas correntes
que me encarceram os sentidos.
amarrotado nesta solidão a que me imponho
quando me dói o amor, quedo-me  no silencio
na esperança de ouvir um sussurro teu, no meu amor dorido.
e o piar das gaivotas morre em mim, nesta ânsia que me estrangula o sonho
na inquietude do corpo trémulo que te deseja conhecer
e a nudez dos meus sentidos veste-se em tons púrpura,
nesta vontade louca de te possuir só para te esquecer…

[podes…





…vir a qualquer hora
…o que tenho para fazer
posso fazer a seguir…
...para ti tenho todo o tempo do mundo...]
[carlos tê]